A febre das tulipas: a primeira bolha especulativa da história

Quanto você estaria disposto a pagar por uma flor? E se eu dissesse que essa espécie é muito bonita e exibe colorações distintas, tais como uma tulipa? Se você for um amante de flores, é provável que essa oferta seja interessante para você. Porém, com certeza você não pagaria o valor de uma casa para comprar um punhado de flores.

Essa introdução pode parecer loucura, mas faz todo sentido para a região dos Países Baixos durante o século XVII. Durante esse período, um evento de proporções catastróficas causou um estrago que viria a se repetir diversas vezes na história com outros artefatos. Estou falando da “Mania das tulipas”, “febre das tulipas”, “crise das tulipas” ou simplesmente “Tulip mania”.

A febre das tulipas

A “Tulip Mania” ou “febre das tulipas” foi um período na Idade de Ouro Holandesa durante o qual os preços de contrato para bulbos da tulipa introduzidas há pouco tempo na região atingiram níveis extraordinariamente elevados para, em seguida, desmoronarem rapidamente.

Na Europa, mercados formais de contratos futuros apareceram na Holanda durante o século XVII. Entre os mais notáveis desse tipo de contrato estava o de cultivo de tulipas, que se desenvolveu durante o chamado “Tulip Mania”. No pico dessa crise, que aconteceu por volta e março de 1637, uma única unidade do bulbo de uma tulipa era vendida pelo valor 10 vezes maior do que o rendimento anual de um trabalhador da época.

Esse período geralmente é considerado como a primeira bolha especulativa da história – ou bolha econômica. Hoje, o termo “Tulip Mania” é comumente utilizado metaforicamente para se referir a qualquer bolha econômica de grandes proporções quando os preços de algum produto ou serviço dispara ou despenca de forma descontrolada.

Como tudo aconteceu?

A introdução da tulipa na Europa geralmente é atribuída a Ogier de Busbecq, o embaixador de Ferdinand I, o Imperador Romano Sagrado para o sultão da Turquia, que enviou o primeiro bulbo de tulipa e sementes para Viena em 1554 a partir do Império Otomano. Desde então, os bulbos de tulipas foram distribuídos da cidade italiana para Augsburg, Antwerp e Amsterdam, cidade localizadas na região dos Países Baixos.

A sua popularidade e cultivo na região hoje conhecida como Holanda está geralmente associada aos anos 1593 depois que o botânico Carolus Clusius realizou um trabalho para a Universidade de Leiden e criou o mundialmente conhecido hortus academicus. Essa é uma espécie de jardim que cultiva espécimes raríssimas de plantas, geralmente muito bonitas e exóticas.

Clusius plantou a sua coleção de bulbos de tulipas e descobriu que as flores eram capazes de suportar as duras condições da região dos Países Baixos. Pouco após isso, as tulipas começaram a ganhar grande popularidade.

Mas você pode estar se perguntando: por que as tulipas fizeram tanto sucesso assim? É verdade que estamos falando de uma flor verdadeiramente bonita, mas essa não foi uma reação exagerada dos holandeses? Acontece que, na Europa, era raro uma espécie de planta como a tulipa.

A aparência da tulipa conferia um símbolo de status para qualquer um. Essa mania coincidiu com a ascensão de novas classes sociais, aumentando consideravelmente o consumo de produtos e serviços. Estávamos na “Era de Ouro” para os países da região. A capital Amsterdã estava no meio do lucrativo negócio envolvendo as Índias Orientais, o que podia, na época, providenciar um lucro acima de 400%.

Preço nas alturas

Como resultado disso tudo, as tulipas rapidamente se tornaram um item de luxo e uma grande variedade das flores começou a surgir. Elas eram classificadas em grupos: as vermelhas, amarelas ou brancas eram chamadas de Couleren; as multicoloridas de Rosen; as violetas de Violetten; e as mais raras de todas, amarelas ou brancas com pontos vermelhos, e Bizarden.

As tulipas multicoloridas exibiam uma coloração única e que realmente chamada atenção para a época. Hoje, sabe-se que esse efeito se dá por conta da infecção do bulbo por uma espécie de vírus chamado “Tulip breaking virus”. Esse era o responsável por “quebrar” a cor da tulipa e produzir uma coloração dividida e tão chamativa assim.

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Os produtores nomeavam as novas variedades com nomes exagerados e que remetessem a algo chamativo. Muitas das tulipas tinham nomes com prefixos como “Almirante”, geralmente combinado com o nome dos cultivadores. Admiral van der Eijck, por exemplo, era um dos nomes que encontrávamos na época e que a “Tulip Mania” estava no auge. “General” era outro prefixo comumente utilizado durante esse período.

À medida que as flores ganhavam popularidade, cada vez mais produtores entravam no negócio de plantação de tulipas. Em 1634, como parte da tentativa de atender a demanda francesa por esse produto, especuladores começaram a atuar no mercado. O preço de contratos futuros para as tulipas raras continuou a aumentar até 1636. Porém, pouco tempo depois os espécimes comuns tiveram seus valores aumentados significativamente.

Ao final daquele ano, as tulipas se tornaram o quarto maior produto de exportação da Holanda, perdendo apenas para o gin, queijo e arenques. O preço das flores explodiu de vez por causa da especulação do mercado futuro entre as pessoas que nunca havia visto um bulbo sequer da tulipa. Muitas pessoas perderam suas fortunas da noite para o dia.

A explosão da bolha

A Tulip Mania atingiu seu auge entre os anos de 1636 e 1637, quando os bulbos de tulipa chegavam a troca de mão mais de 10 vezes em um mesmo dia. Nenhum comprador chegou a de fato comprar nenhum desses contratos, porque, em fevereiro de 1637, os mercados futuros de tulipas caiu inesperadamente e fizeram os preços caírem de forma gigantesca.

O colapso começou em Haarlem, quando, pela primeira fez, compradores aparentemente se recusaram a mostrar os bulbos de tulipa em uma auditoria. Isso também pode ter acontecido porque a cidade estava passando por uma epidemia de peste bubônica. Embora a presença da doença possa ter ajudado a criar a crise da tulipa, ela também ajudou a estourar a bolha especulativa que estava se formando.

O preço das tulipas

A falta de informações consistentes com relação ao preço das tulipas na década de 1630 torna difícil medir a extensão do estrago causado pela Tulip Mania. Os dados com relação a esse período vêm de panfletos distribuídos pela “Garegoedt and Warmondt” (GW) escritos pouco tempo depois de a bolha estourar.

O economista Peter Garber coletou dados de vendas de 161 bulbos de 38 variedades entre os anos de 1633 e 1637, com 53 deles sendo registrados pela GW. Noventa e oito registros vieram do período em que a bolha estava estourando, no dia 5 de fevereiro de 1637, com preço variando bastante. Naquele período, as vendas eram realizadas de várias maneiras diferentes. O mercado futuro era o principal deles, realizado em colégios onde se reuniam os produtores e compradores.

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Porém, alguns estudos alegam que o bulbo de um única tulipa poderia custar tanto quanto uma respeitosa mansão no centro da Holanda. Isso é realmente impressionante se considerarmos que estamos falando de algo que pode ser encontrado facilmente na rua hoje. Como estratégia para manter os preços nas alturas, os produtores começavam a guardar estoques das tulipas e passar a impressão de que a oferta não estava tão alta assim. Porém, quando os consumidores perceberam que eles mesmos poderiam produzir tulipas em casa, os preços dos bulbos despencaram.

A explicação racional para o ocorrido

Não há como negar que os preços dos bulbos de tulipa aumentaram e caíram drasticamente entre os anos 1636-37. Porém, mesmo essa queda brusca não a existência de uma crise ou uma bolha especulativa. Para que a Tulip Mania fosse enquadrada nessa categoria, o valor dos bulbos precisaria estar muito acima do valor intrínseco dos bulbos. Economistas modernos acreditam que já vários fatores que comprovam que isso, na verdade, não constitui uma bolha especulativa.

Os aumentos dos anos 1630 constituiu um avanço a partir da Guerra dos Trinta Anos. Entre 1634 e 1635, exércitos alemães e suecos perderam espaço ao sul da Alemanha. Foi por isso que o Cardial Ferdinand, o responsável pelas tulipas na Holanda, se moveu para o norte. Após a Paz de Praga (1635), os franceses (e os holandeses) decidiram apoiar os protestantes suecos e alemães com dinheiro e armas contra o império Habsburgo e ocupar os Países Baixos espanhóis em 1636.

Assim, os preços de mercado (pelo menos inicialmente) estavam respondendo racionalmente a um aumento da demanda. No entanto, a queda dos preços foi mais rápida e dramática do que a subida. Os dados sobre as vendas desapareceram em grande parte após o colapso dos preços de fevereiro de 1637, mas alguns outros dados sobre os preços dos bulbos após a Tulip Mania mostram que os bulbos continuaram a perder valor durante décadas.

Outros economistas acreditam que esses elementos não podem explicar completamente o aumento dramático e queda nos preços das tulipas. A teoria de Garber também foi desafiada por não explicar um aumento dramático semelhante e queda nos preços para os contratos regulares de bulbo de tulipa. Alguns economistas também apontam outros fatores associados às bolhas especulativas, como o crescimento da oferta de moeda, demonstrada por um aumento nos depósitos no Banco de Amsterdã durante esse período.

Esse vídeo, em inglês (com legenda), ajuda a explicar bem o que aconteceu durante a época do Tulip Mania.

Impactos nos dias atuais

Anne Goldgar, uma economista moderna que escreveu sobre o ocorrido em 2007, argumenta que, embora a Tulip Mania possa não ter constituído uma bolha econômica ou especulativa foi traumática para os holandeses por outras razões: “Mesmo que a crise financeira tenha afetado pouquíssimos, o choque da Tulip Mania foi considerável, e toda uma rede de valores foi posta em dúvida”.

No século 17, era inimaginável para a maioria das pessoas que algo tão comum como uma flor poderia valer muito mais dinheiro do que a maioria das pessoas ganhou em um ano. A ideia de que os preços das flores que crescem apenas no verão podem flutuar tão descontroladamente no inverno, jogou no caos a própria compreensão de “valor”.

Muitas das fontes que relatam os problemas da mania da tulipa, como os panfletos anti-especulativos foram citados como evidência da extensão do dano econômico. Estes panfletos, no entanto, não foram escritos por vítimas de uma bolha, mas foram principalmente motivados religiosamente. A turbulência foi vista como uma perversão da ordem moral – prova de que “a concentração na terra, em vez da flor celestial, poderia ter consequências terríveis”. Assim, é possível que um evento econômico relativamente menor tomou uma vida própria como um conto de moralidade.

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Quase um século depois, durante o acidente da Companhia do Mississipi e da Companhia do Mar do Sul em cerca de 1720, mania de tulipas apareceu em sátiras dessas crises. Quando Johann Beckmann descreveu a mania da tulipa pela primeira vez na década de 1780, comparou-a com as loterias falhas da época.

Na visão de Goldgar, até mesmo muitos trabalhos populares modernos sobre mercados financeiros, como A Random Walk Down Wall Street de Burton Malkiel (1973) e A Breve História da Euforia Financeira de John Kenneth Galbraith (1990, escrito logo após o crash de 1987) usaram a Tulip Mania como uma lição de moralidade. A crise novamente tornou-se uma referência popular durante a bolha dot-com de 1995-2001. No século XXI, os jornalistas o compararam novamente ao fracasso da bolha especulativa pontocom e à crise das hipotecas subprime.

Em novembro de 2013, Nout Wellink, ex-presidente do Banco Central dos Países Baixos, descreveu Bitcoin como “pior do que a mania da tulipa”, acrescentando: “Pelo menos você tem uma tulipa, agora você não tem nada”. Apesar da popularidade duradoura da crise, Daniel Gross de Slate disse de economistas oferecendo explicações de mercado eficiente para a Tulip Mania, que “se eles estão corretos, então os escritores de negócios terão de apagar Tulip Mania do seu pacote prático de analogias de bolhas”.

O extraordinário é que o colapso do mercado de tulipas não diminuiu o apetite holandês por flores – na arte, pelo menos. A pintura holandesa de flores persistiu para os dois séculos seguintes. É possível ver tulipas em, por exemplo, Jan van Huysum Flores em um vaso de terracota de 1736-37.

No entanto, ironicamente, muito poucas pinturas de flores sobreviveram da década de 1630, quando a república holandesa estava presa à Tulip Mania. “Realmente há essa ruptura na produção de pinturas de flores nas décadas de 1630 e 40”, diz Betsy Wieseman, curador da Galeria Nacional de Flores Holandesas.

“Talvez, pelo menos durante alguns anos, os excessos da Tulip Mania e as memórias traumáticas que se seguiram foram tão repugnantes para os colecionadores de arte holandeses que eles não poderiam estender a ideia de olhar uma imagem de uma flor que se pendura em sua parede”.

Mais de dois séculos depois, os fatos também foram lembrados por Charles Mackay, em 1843. Ele publicou um livro intitulado “Memorando de extraordinários engodos populares e a loucura das multidões”. Porém, Mackay, assim como outros autores, não consideraram a existência da peste bubônica como um fator que pudesse ter interferido na Tulip Mania. Possuir tulipas no lar era um meio de impressionar e quando a riqueza rolava escada-social abaixo então, todos clamavam por tulipas.

E você, já conhecia a história da Tulip Mania ou Crise das Tulipas? Se ainda não, compartilhe com a gente o que você achou desse incrível relato histórico?

  • Libélula Selvagem

    O que faz a ganância humana…

    Já vi muitos casos assim… talvez o mais famoso (pelo menos aqui na Região de Porto Alegre), tenha sido os das Towner de Cachorro Quente…

    Não lembro o ano, acho que foi por 1993. De repente começaram a surgir as Towner (da Asia Motors) transformadas em carrocinhas de cachorro quente pelas esquinas… logo tornou-se febre…O preço foi nas alturas… e ainda assim, “dizem que o vizinho do tio do primo da mulher do açougueiro enricou!”
    Para se ter uma idéia de preço, o “carrão” na época era o Fiat Tempra Ouro 16 válvulas… Uma Tawner custava o valor de uns 10 Tempras!
    Logo, tinha-se o absurdo de 20 Towners enfileiradas em qualquer esquina!
    Hoje, achar uma é raridade!

    Enquanto escrevia, lembrei da “onda das trufas de chocolate”… Em tudo que era canto tinha gente vendendo trufas… cinco reais cada… e o engraçado: quanto mais gente vendendo, mais caras ficavam! Tinha nego (tá, e branco também!) engravatado vendendo trufas a quinze reais!!!
    Não tenho certeza do início, mas acho que foi por 2008…em 2011 já se encontravam trufas a três reais… Hoje até tem umas grandonas por dois reais, mas a média de preço é de um real…